BRUMADINHO – ACIDENTE E APRENDIZADOS

BRUMADINHO – ACIDENTE E APRENDIZADOS

Um estouro, seguido de uma avalanche de lama de rejeito de minérios atingiu construções e, em minutos, pegou centenas de pessoas de surpresa. Passa de 250 o número de desaparecidos.

Em três anos, era o segundo rompimento de barragem operadas pela gigante Mineradora Vale. A Vale é uma das acionistas da Samarco e opera outras 19 barragens, da mesma categoria, no Estado de Minas Gerais.

Ao todo, o Brasil possui 20 mil barragens. Destas, 3.386 são de risco, 205 delas são de rejeitos minerais, como a de Brumadinho.

A Mineradora Vale já foi uma gigante brasileira, a maior. Mas seus ativos davam prejuízo enquanto estavam sob a tutela de governos. Agora, o Governo Brasileiro é o que chamam de Golden Share, o que garante manter a sede da empresa no Brasil. É só ! O Governo é um acionista, não manda e não tem ingerências. E seguindo essa cartilha, o atual governo garante que não fará qualquer intervenção.

Em reunião emergencial desta terça-feira, 29, a Vale já inicia o desmonte das suas 19 barragens mineiras. Vão ser aplicados R$ 5 bilhões nos próximos três anos. Para o desmonte perfeito, a vale vai ter que diminuir em 10% sua produção atual de 366,5 milhões de toneladas de ferro por ano. Enquanto isso, nos quatro dias seguintes ao desastre, as ações da Vale desvalorizaram 26%. E advogados americanos estudam tratativas para a abertura de dois processos milionários nos tribunais daquele país, por omissão de informações corretas sobre riscos na operação de minérios.

Só multas não devem resolver. Desde do acidente da Samarco, o Ibama aplicou 25 multas, que juntas geram uma fortuna de R$ 350 milhões, recorridas exaustivamente pela Samarco, na tentativa de atenuar a culpa. A comunidade internacional ficou perplexa em saber que pouco ou quase nada mudou na política de segurança de barragens no Brasil.

O atual governo, ainda meio sem rumo, montou um gabinete de crie e faz suas recomendações iniciais. A primeira foi proibir construções na área um, o primeiro perímetro mais próximo das barragens. Não pode haver nenhuma estrutura que não esteja relacionada diretamente à produção .

 

A barragem, chamada de alteamento à montante, é um modelo antigo, instável e três vezes mais barato que o modelo à jusante. É uma conta que não se justifica mais, economia se sobrepondo à segurança. Esse modelo já foi proibido no Chile e é cada vez menos usado na Europa e nos Estados Unidos.

O empilhamento à seco é o modelo mais seguro e com melhor tecnologia. A Vale afirma que 80% da mineração no Norte do Brasil já ocorre a seco. Busca-se cada vez mais retirar o uso de barragens em processos de mineração.

E quanto ao rejeito das barragens, o que fazer?

A universidade Federal de Minas Gerais possui um projeto que processa a lama do rejeito e a transforma em pó, para depois virar tijolos, usados na construção de casas. O custo é 30% mais barato que a construção convencional.

Política atual X Incompetência orgânica

Um decreto assinado em novembro de 2015 pela então presidente Dilma Roussef, reconhece essa catástrofe de rompimento de barragens como um acidente natural, portanto, sem ônus para o Governo.

Fora as inúmeras questões pendentes, ao que tudo indica algo muda daqui pra frente. Desta vez não foi só o maior impacto ambiental da história, foi a maior perda humana, envolvendo a mineração, num espaço tão curto de tempo,

É hora de entender o recado da natureza, compreender o comportamento dos atores envolvidos nos processos. Não são os pequenos mineradores a grande ameaça. Aliás não são ameaça, são geradores de renda para cidades inteiras, ainda assim são invisíveis à economia. São lembrados quando estão com alguma licença vencida. Máquinas e equipamentos passam a arder em chamas promovidas pela truculência de alguns órgãos. Ainda assim, os pequenos e médios mineradores conseguem se ajustar rapidamente para continuar trabalhando.

A política aplicada ao pequeno minerador deve servir também para a Vale e as gigantes da mineração que atuam em solo brasileiro. O tratamento, com pesos e medidas desiguais é injusto. O Brasil está mudando, sem espaço para antigas manobras e jeitinhos brasileiros. Que venham as multas, compensações e medidas reparatórias mais rápidas. A impunidade é inimiga da velocidade na apuração de fatos e culpados.

Nós, do Rotas do Garimpo, estamos de olho. Cobraremos exaustivamente e daremos voz aos que, até o momento, estiveram inseguros para se manifestar.

Marinaldo Guedes

Jornalista

Nenhum comentário

Envie um comentário